20170607

Master of None, Tim Burton e Salazar's Revenge

I.

Esses dias assisti, por indicação da minha querida amiga Lari, uma seriezinha da Netflix chamada Master of None. Nao tinha ouvido falar dela, e provavelmente não teria até hoje, se não fosse por aquele comentário da Lari.

Mas acabei maratonando as duas temporadas e gostei bastante. Os primeiros três episódios causam um certo estranhamento, como acontece com séries em geral, já que é o momento de entender o ritmo e os personagens. Depois é fácil perceber referências a Woody Allen de maneira constante (a abertura em letras brancas sobre fundo preto, a escolha das músicas, o tom do humor, o desajuste de Dev, o personagem principal, que é também pequeno e verborrágico e, é claro, vive em Nova York), e tudo começa a fazer sentido dentro da linguagem escolhida.

A segunda temporada é um pouco mais dramática que a primeira, e foi visivelmente mais cara, mas a leveza geral dos episódios se mantém. (Digo leveza, mas o grande charme da série é exatamente a exploração de problemas comuns de pessoas que entraram na terceira década de vida sem ter certeza de nada: me identifiquei.)

E devo confessar que Woody Allen (também como escritor: ele tem livros hilários) é um guilty pleasure (porque tem toda a polêmica em volta da vida pessoal dele e também porque é muito óbvio apontá-lo como um dos preferidos), assim como Tarantino e Tim Burton -- o trio parada dura do cinema cult mainstream. De qualquer maneira, impossível negar a força da assinatura desses caras.


II.

O que me leva a comentar um livro que estou lendo: O estranho mundo de Tim Burton, publicado no Brasil pela Leya. O livro, de Paul A. Wood, é uma coletânea de críticas e artigos publicados à época do lançamento dos filmes de Burton, desde As grandes aventuras de Pee-Wee até Alice no país das maravilhas. Leitura gostosa, que me empurrou para outra maratona, é claro: filmes de Tim Burton.

Comecei por Batman e Batman Returns, que não via há mais de uma década (depois preciso emendar os filmes de Joel Schumacher; e daí quem sabe os de Christopher Nolan, também conhecido como o cara que chegou no Batman definitivo), o mais interessante é notar que esses Batman são classudos, pra começo de conversa. Toda aquela cinematografia handmade, todo aquele arzão de HQ. (E no Returns tem o Pinguim do Danny DeVito, que é incrivelmente superior ao celebrado Joker do Jack Nicholson.)

Filmados em Londres e em Los Angeles (o primeiro em 1989 e o segundo em 1992), eles nos transportam para uma época em que filmes de super-heróis não eram uma exibição alucinante de efeitos especiais e cenas de ação pura. Há cuidado no figurino, nas escolhas de ângulos e tomadas mais estilizadas, no ritmo dosado de quem quer, antes de mais nada, contar uma história. Além disso, nos transportam para uma época em que filmes de super-heróis nem eram algo. A gente pode dizer, com segurança, que Tim Burton mudou para sempre, na virada dos anos 90, os filmes de super-heróis. Hoje, os maiores orçamentos e bilheterias são os dos filmes da Marvel, que inclusive tem seu próprio estúdio (pudera: Batman de Tim Burton movimentou mais de US$1 bilhão em bilheteria e produtos licenciados, fato até então inédito para filmes desse nicho).

Enfim. Quando falamos de Tim Burton, falamos mais de Beetlejuice, Edward Scissorhands, Willy Wonka e Alice do que de Batman. Falamos, inevitavelmente, do estranho, do grotesco. Não podemos esquecer que sua bizarrice é palatável porque ele fez algo dificílimo: trouxe o bizarro para o mainstream. E, também,é claro, lançou Johnny Depp às alturas mais altas do estrelato.


III.

O que me leva a comentar Piratas do Caribe - A vingança de Salazar, que vi em 3D na semana passada. Serei breve: achei o filme bom, mas muito cheio de efeitos especiais (custava deixar a gente ver o Javier Bardem por baixo dos efeitos? Um ator desse calibre desaparecer debaixo de efeitos só pode ser um defeito), piadas sem graça (Johnny Depp pegou todos os trejeitos sutis que fizeram Jack Sparrow o pirata mais ambivalente de todos em A maldição do Pérola Negra e adicionou várias camadas de exagero: Sparrow virou um plano bufão de meia-idade que passa a vida equilibrado entre a sorte e a bebedeira) e cenas de ação com elementos demais (a cena da batalha entre os navios de Jack e Salazar ficou tão escura e bagunçada que comecei a ter saudades reais daquele limpo duelo na oficina de Will Turner em A maldição do Pérola Negra, quando a vida ainda era mais simples). Em compensação, conseguimos saber um pouco mais sobre o passado de Jack Sparrow (que sempre será um personagem fascinante, não importa o quanto o Johnny Depp perca a noção).