20170605

Aquisições sortudas e Mrs. Dalloway

I.

Ontem topei com mais uma feira de livros. É a terceira este ano (a primeira foi algumas semanas atrás, tinha um estande da Leitura no Parque das Bandeiras com centenas de títulos a dez reais. Comprei uma biografia do Saramago -- outra, já tenho uma que ainda não tive tempo de ler -- e Dias exemplares, uma ficção do Michael Cunningham -- aquele autor de As horas; a segunda foi uma passada num saldão da Fnac, que me rendeu o Novelas exemplares do Cervantes -- que livro lindo -- e A confraria, do John Grisham), e achei quatro coisas incríveis: uma coletânea de cartas do Capote, uma biografia do Salinger e outra do Tim Burton e, last but not least, um livrinho mágico que estava escondido debaixo de algumas pilhas, perdido na seção de livros infantis:


II.

Conversando com Mrs. Dalloway, de Celia Blue Johnson. Neste livro, dividido em capítulos curtos e deliciosos, a autora conta a história por trás das histórias, os momentos de inspiração e os processos criativos dos escritores que presentearam a humanidade com grandes obras de ficção. Ela passa por Hemingway e Fitzgerald, García Márquez e Júlio Verne, Dostoiévski e Melville. São cinquenta obras, cinquenta processos. Celia Blue Johnson começou a perseguir este tema quando terminou de ler Mrs. Dalloway "pela terceira ou quarta vez" e decidiu "investigar o que aconteceu antes da criação da primeira página".

O mais interessante é perceber certas recorrências: muitos autores parecem receber seus personagens de maneira quase sobrenatural, vindos de outra dimensão. Como se estivéssemos imersos em um universo de possibilidades e a literatura se apresentasse como um fio de mediunidade, um acesso a esse reservatório de almas e eventos inventados que só podem ser alcançados através de talento e trabalho.

Tolstói recebeu Anna Karenina aos poucos, começando pelo cotovelo, no intervalo amortecido entre a vigília e o sono. Julio Verne pariu Phileas Fogg a partir de um anúncio de jornal que incendiou sua imaginação e Robert Louis Stevenson, após terminar a pintura de uma aquarela, visualizou, na ilha que tinha produzido, uma série de personagens entre as folhagens das árvores. Tolkien era professor em Oxford e, numa tarde tediosa, se pôs a corrigir provas quando uma frase lhe assomou à mente: "Num buraco no chão vivia um hobbit". García Márquez dirigia em direção ao México quando ouviu em sua cabeça a primeira frase de Cem anos de solidão. Deu meia-volta, trancou-se no quarto e durante um ano frenético produziu o maior romance latino-americano de todos os tempos. O livro de Celia Blue Johnson não chega a tratar de J. K. Rowling, mas lembro de ler em algum lugar o relato do momento da criação de Harry Potter, que chegou a ela inteiro, de súbito, no meio de uma viagem de trem.

Joseph Heller, autor de Catch-22, afirmou: "As ideias vêm a mim; eu não as crio por um ato de vontade". William Burroughs menciona um "invasor", um "Espírito Horrendo", com o qual entrou em contato após a morte da esposa (anedótica, inclusive: ao fazerem uma brincadeira em uma festa, ela pôs um copo de uísque na cabeça para que o marido pudesse atirar nele e estilhaçá-lo; ele acabou atingindo a cabeça dela, que morreu antes de chegar ao hospital). Jack London dizia que "não se pode ficar esperando pela inspiração. É necessário sair atrás dela com um porrete", o que pode dar a entender que a inspiração é o desfecho de um processo voluntário. Porém, ainda que o processo seja voluntário, o seu resultado não é obtido inevitavelmente, matematicamente. Até, por isso, o porrete.

Não é à toa que os gregos invocavam as musas para enveredarem pela tradição poética: a própria palavra "inspiração", tão prosaica, remete ao ato de trazer para dentro algo que está fora, um sopro de vida, oxigênio, combustível. Me parece bonita essa ideia, até quando a inspiração vem de pessoas reais: Tom Sawyer é um modelo montado a partir de três meninos que Mark Twain conheceu em sua infância, e a inspiração de Twain é uma espécie de eletricidade que percorre o pequeno Tom e o traz à vida, bem à maneira de um experimento do Dr. Frankenstein.

Fato é que, depois de trazidos à vida, bons personagens ganham o dom da imortalidade. Conan Doyle teve que ressuscitar Sherlock Holmes por conta do clamor público, por exemplo, mas não é disso que falo. Nem falo do belo episódio que García Márquez relatou algumas vezes: quando chegou a hora de o Coronel Aureliano Buendía morrer de velho, García Márquez, que já havia prorrogado demais essa hora, subiu ao quarto em que a esposa dormia e chorou por duas horas.

Falo dessa zona sobrenatural que a inspiração parece alcançar, sendo berçário de figuras que são maiores que a vida: Holmes é maior que Conan Doyle, Quixote é maior que Cervantes, Alice é maior que Carroll. Esses personagens jamais morrerão, continuarão vivos indefinidamente. Até quando as gerações futuras se esquecerem de seus criadores e recontarem essas estórias através de suas novas tecnologias, esses personagens estarão vivos. Tudo graças a esse segundo inesperado de mediunidade, a inspiração.