20181011

As beatas cansam seus joelhos em novenas fervorosas
Os políticos traçam seus discursos em dogmas sinuosos
Os pais expulsam seus filhos viados de casa, porque a Bíblia

Os defensores das mitologias se matam em embates sagrados
(Em 1810, o padre Miguel Hidalgo arranca da igreja a imagem
da Virgem da Guadalupe e amarra o manto na lança.
O estandarte fulgura sobre a multidão.)

O povo cristão sabe que é o povo escolhido por deus,
enquanto os muçulmanos sabem que os escolhidos são eles,
enquanto os judeus sabem que os escolhidos são eles.

(As divindades respondem a tudo com silêncio cósmico.)

20180428

Under the banner of heaven


"'Even as a young boy,' he says, 'I  remember wondering about contradictions between what the religion taught and scientific truth. But Uncle Roy told us that the way to handle that was just to avoid asking certain kinds of questions. So I trained myself to ignore the contradictions. I got good at not letting myself think about them'." (p.  332)

Quando eu tinha nove anos de idade, dois missionários mórmons começaram a pregar para mim, numa série de palestras proselitistas muito bem arranjadas. Depois de cinco ou seis encontros de aproximadamente uma hora, eu fui desafiada a me batizar. Como já vinha frequentando a primária (organização dentro da igreja voltada apenas para as crianças) e tinha feito amigos, gostava das atividades que fazíamos e, é claro, me sentia inspirada por aquela verdade inegável que dois adultos vinham muito formalmente e com grande autoridade trazer à minha casa, decidi que ia, sim, me batizar. Meus pais estavam afastados da igreja já há 11 anos, então pra mim foi mesmo uma questão de poder escolher -- as crianças geralmente são batizadas aos oito anos de idade, quando são criadas dentro da religião. No dia 3 de março de 1995, então, meu tio Ricardo, que era bispo da ala que eu iria frequentar, me batizou por imersão para remissão dos meus pecados. 

Pouco tempo depois, meus pais voltaram a frequentar as reuniões e, nos quase dez anos seguintes, eu e minha família fomos membros ativos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Participei de acampamentos e bailes, me formei no seminário (os quatro anos de aulas diárias das escrituras que são propostos aos jovens), fui líder de música da minha ala. Não demorou muito, porém, para que eu começasse a ter perguntas que não podiam respondidas. Lá pelos meus 15 anos de idade eu quis parar de frequentar as reuniões, mas meus pais me falaram que só ao fazer 18 eu poderia deixar de seguir a religião que eles professavam na casa deles. Quando eu fosse independente o suficiente para me mudar, eles disseram, eu poderia também escolher me afastar dos caminhos de Deus. Eu perguntei por quê, já que aos nove anos eu tinha conseguido decidir por mim mesma. Eles disseram que eu devia mesmo era me agarrar ao testemunho que eu havia recebido naquela época e trabalhar na minha fé. 

Tivemos três anos de brigas dominicais intermitentes. Eu sabia desde muito nova que eu era gay, mas é claro que, no meio de uma adolescência intensamente religiosa -- principalmente num sistema de crenças que sublinha inequivocamente a castidade e o pecado que a homossexualidade representa --, aquilo só passou de um sentimento confuso para um pensamento completamente nítido quando eu me apaixonei por uma menina e percebi que aquilo, conforme a fé dos meus pais e, por conseguinte, da minha própria fé, tinha potencial de me condenar à danação eterna. Até os meus 18 anos de idade, minha vida foi um pêndulo entre a fé completa, devidamente estimulada (e, portanto, semanas de calmaria em casa), e clarões de racionalidade irreconciliável com a crença mórmon (então me negava a ir à igreja; às vezes, passava semanas brigada com a minha mãe). Não posso dizer que só questionei o mormonismo porque sou gay, mas isso com certeza foi um fator. As pessoas, na igreja, se casam entre si, em sua enorme maioria, e se casam muito novas (minha irmã, por exemplo, casou aos 19; minha mãe, aos 18). São incentivadas a procurar um casamento mórmon desde a tal da primária. Os homens saem para o trabalho missionário aos 18 (meu irmão acabou de voltar de uma temporada de dois anos no Mato Grosso), e as moças são encorajadas a esperá-los voltar para com eles contrair matrimônio -- eterno, diga-se -- em um daqueles templos bonitos que existem pelo mundo. Se eu fosse hétero, provavelmente teria, de maneira quase automática, me casado com um ex-missionário e dissolvido todas as minhas dúvidas na certeza dele e no amor pelos três ou quatro filhos que eu teria agora, aos 31 anos de idade. 

Porém, além de a vida ter me provado que eu sou mesmo muito sapatão, o que também aconteceu de maneira paralela na minha adolescência foi a paixão pela literatura. Eu li as bibliotecas inteiras das escolas onde estudei. Gastava minha mesada comprando livros, arranjava trabalhos com os meus tios e comprava livros, ia na biblioteca do Sesc de bicicleta pra pegar livros. Continuo gastando todos os meus salários com livros: foi uma paixão fulminante que me levou de escritor a escritor, desde a série Vaga-Lume e os livros do Pedro Bandeira, aos meus amores incuráveis de hoje. 

Em algum momento dessa arrebatada fissura, eu comecei a ler coisas que não eram recomendadas pelas lideranças da igreja. E não estou falando de pornografia crua. Estou falando de boa literatura. Caio Fernando, por exemplo. Homem de texto inflamado e belíssimo, falava sobre coisas que a igreja recomendava que ficassem mesmo nos porões da cultura. Chico Buarque, que em sua literatura é meio desbocado, foi quase defenestrado pela minha mãe. Bill Bryson falava sobre fósseis de dinossauros e bilhões e bilhões de anos e Big Bang. No meio disso, a linha entre o certo e o errado, tão nitidamente traçada pela régua mórmon do comportamento intelectual, foi se rearranjando. Eu precisava buscar certas respostas sozinha, mas a igreja dizia que essa busca tinha que ser feita apenas através de material que pudesse promover a fé. Qualquer coisa diferente disso era apostasia, blasfêmia. A igreja criticava os tais 'intelectuais' que se perdiam do caminho da retidão tentando achar respostas racionais a questões de fé. A posição da igreja era apoiada por copiosas passagens de escrituras que condenavam aquele homem orgulhoso que, se arvorando na racionalidade, ousou construir uma torre que alcançasse os céus e foi por Deus escorraçado. O próprio mito primordial do monoteísmo no qual nasceu o mormonismo reputa a inteligência fato resultante de um pecado, o pecado original -- cometido por uma mulher, é claro. Mas como abdicar do uso puro da lógica ao se pensar sobre coisas tão relevantes quanto o sentido da vida e a origem de tudo?

O homem religioso tende a defender o uso do coração e o irritante pensamento viciado que vem com isso: leia apenas o que promove a fé, ore para ter certeza daquilo. Com isso vem a superstição de que a ciência é apenas outro tipo de fé, um que talvez tire o crente do caminho da retidão. Esse jogo de cartas marcadas é alvo de críticas ferozes por Richard Dawkins no livro Deus, um delírio, que inclusive me ajudou muito a me livrar da culpa que carreguei durante anos por ter renegado a religião dos meus pais. Esse gerador de falácias é também um dos personagens principais desse livro fascinante do Jon Krakauer.

A história é narrada em duas frentes. Uma das frentes segue, na melhor linha do jornalismo literário inaugurado por Capote, um duplo homidício cometido em 1984 por dois irmãos que alegaram ter sido comandados por Deus; a outra investiga as origens da igreja mórmon e suas dissidências fundamentalistas. A tese de Krakauer é que os crimes só podem ser explicados a partir de um substrato religioso que nos remete ao século 19, aos primórdios do que viria ser a igreja dos Santos dos Últimos Dias. Krakauer estudou e viajou até as localidades mencionadas no livro por mais de três anos, e depois passou um ano trabalhando no texto. Entre as localidades visitadas, estão alguns recantos da igreja mórmon fundamentalista que até hoje pratica a poligamia hardcore, com direito a casamento de meninas de 12 anos de idade e embates entre profetas modernos, homens que se auto-proclamam porta-vozes de Deus, e são obedecidos por sua comunidade, em nome da fé, até nos mais desarrazoados decretos. 

Tudo isso só pode ser explicado pelo mecanismo do pensamento circular que produz a fé cega. Joseph Smith, fundador e primeiro profeta da igreja, foi documentadamente processado em mais de uma ocasião por charlatanismo (ele dizia poder localizar tesouros através de uma pedra mágica), antes de traduzir o Livro de Mórmon em circunstâncias que só não são dúbias quando narradas à luz purificadora da narrativa oficial SUD. Aos seguidores que foi arrebanhando, prescrevia o mesmo procedimento e, com grande carisma, foi o que muitos estudiosos chamam de 'religious genius'. Casou-se com mais de trinta mulheres até que publicou a revelação de que o casamento plural de um homem com muitas mulheres, nunca o contrário, era um mandamento divino (aliás, religiões em geral são muito sexistas; a igreja mórmon é particularmente machista, mas aquele machismo totalitário com que as mulheres concordam alegremente; a igreja é também muito veladamente racista: até 1978, homens negros eram proibidos de participar das ordenanças mais sagradas e o casamento interracial era considerado pecado gravíssimo). Através da fé e com muito pouco escrutínio real, multidões abraçaram esse costume que até hoje, depois de ser muito combatido, repercute na cultura americana (às vezes, na forma de um evento tão dramático quanto o crime dos irmãos Lafferty, que Krakauer escolhe como ponto de partida para sua análise).

Outra prova dessa postura da igreja quanto ao uso puro do cérebro é a resposta malcriada de uma das autoridades mórmons, um tal de Richard Turley, ao livro. A réplica vem num apêndice à edição original e, devidamente treplicada por Krakauer, é basicamente um ataque a questões pontuais da narrativa que visam a desqualificar o autor e tem, no fim das contas, apenas um tom ofendido e um ar de publicação orientada. 

Minha família até hoje pratica a fé mórmon com grande devoção. Entendo que tenham escolhido esse estilo de vida, e sei que também entendem as escolhas que eu fiz. Temos diferenças irreconciliáveis (meus pais são pessoas essencialmente bondosas, são pessoas incríveis; de qualquer maneira, não consigo evitar a impressão de que talvez fossem melhores ainda sem religião, porque inclusive admiro muito pessoas que são bondosas sem o estímulo do prêmio e da punição que a religião representa: apenas assim a bondade pode ser um fim em si mesma), mas nosso relacionamento é marcado por muito amor e amizade. Isso, também, porque escolhemos não tocar nos pontos delicados dos nossos desacordos. Algo que a igreja tem feito há quase 200 anos, desde a sua fundação. Não é ilógico, porém, que uma organização religiosa que alega trazer ao mundo a verdade se utilize de subterfúgios para 'purificar' sua história oficial? E, de uma maneira mais geral, não é ilógico que as religiões inibam o uso da razão, se é a verdade que buscam? 

Não acho que, em pleno século 21, o século do fluxo frenético de informações, a razão possa ser questionada como ferramenta principal da espécie humana em sua experiência de existência e coexistência. Foi a razão, e não a religião, que erradicou a escravidão institucionalizada, há pouco mais de um século, e que idealmente conferiu pesos iguais a raças diferentes. Foi a razão, e não a religião, que colocou a mulher numa posição um pouco mais confortável em relação ao homem: até hoje, em sociedades profundamente religiosas e de acordo com escrituras sagradas, mulheres são apenas um apêndice ao homem, um bem que proporciona conforto, prazer e filhos. Foi a razão, e não a religião, que curou doenças, que inventou máquinas fantásticas e que reconfigurou a vida, levando o espírito humano às intimidades do átomo e às imensidões das galáxias. A razão demonstra. A razão traz resultados nas mãos, frequentemente concretos: você pode até usar o seu computador pra atacar a razão sobre a fé, mas você estará usando um produto da razão para atacar a razão. A religião promete a verdade, mas oferece mitos e mecanismos para contenção do pensamento crítico. A religião promete paz, mas traz em si a marca do Senhor dos Exércitos do Velho Testamento, que divide seu povo em 'nós' e 'eles', derrama sua ira e concebe infernos vindouros. A religião se pretende caridosa, mas simplesmente se furta ao recolhimento de impostos. A religião anuncia a paz, mas inculca doutrinas inteiras que fazem com que travestis sejam espancados de madrugada em nome da pureza de Deus.

Under the banner of heaven é (também por razões pessoais) um das melhores coisas que eu já li na vida. Terminei as quase 400 páginas em inglês em dois dias de leitura febril, deliciada com o texto e com a coragem -- não é qualquer um que escreve tão bem, não é qualquer um que tem a coragem de mexer no vespeiro politicamente incorreto de se falar abertamente sobre a religião alheia. 


20180306

Mais notas sobre coisas aleatórias

Comecei a ver The Handmaid's Tale semana passada e estou indo pro quinto episódio. Gostando bastante da adaptação (o livro é incrível, ganhei da Natasha uns meses atrás) e da produção (a começar pelo elenco -- que tem inclusive a Rory! -- pelo visual lindo, aquela paleta de cores contrastando o vermelho vivo e o branco estourado -- e as cores têm muitos significados nesse universo criado por Margaret Atwood --, cheio de primeiríssimos planos -- aliás, que atriz, essa Elisabeth Moss! -- e aqueles primeiros planos descentralizados que têm sido cada vez mais comuns e que funcionam especialmente bem em histórias distópicas). E é aquele negócio, né? Não dá pra dizer que uma teocracia totalitária não levaria e extremos absurdos como os que Margaret Atwood descreve, porque algo parecido já aconteceu na Europa e, além de ter dado origem a coisas ainda mais absurdas tipo o Tribunal da Fucking Inquisição, DUROU QUASE MIL ANOS!

E quero aproveitar pra dizer que, quanto mais dou aulas para adolescentes, mais entendo a baderna humana (ou melhor, a Baderna Humana; esse devia ser o nome oficial da História, se você parar pra pensar). Quando falamos sobre a Inquisição, por exemplo, falamos sobre todo um processo, inclusive bem louco, que foi mais ou menos assim: nasceu um cara na periferia do Império Romano (que é por si só uma ideia bem badernosa) e pregou umas paradas de paz & amor & caridade; o Império achou as paradas subversivas (hilário também pensar no tanto de vezes em que paz & amor & caridade são considerados subversivos) e levou o cara a julgamento; no julgamento, os conterrâneos do cara falaram que era pra matar mesmo (e matar com requintes de crueldade +  plateia); o cara morre e seus seguidores são perseguidos por trezentos anos; depois de três séculos de perseguições, o Império decide que o que o cara pregou faria sentido num contexto de mudanças políticas e declara que essas pregações agora são a religião oficial e quem não a seguir está lascado; essa religião vira a maior instituição do mundo, a mais rica e com poderes irrestritos sobre o arbítrio das pessoas; durante quinhentos anos, as pessoas podem ser julgadas e até mortas (também com requintes de crueldade) se alguém apenas desconfiar e dedurar alguma infidelidade (principalmente as mulheres, claro); recentemente (porque na Espanha, por exemplo, a Inquisição só foi abolida em 1834), a instituição renegou as práticas desse tribunal infernal sob a justificativa de que Deus sabe o que faz e os homens, não; pulemos para o século XXI e podemos ver: muitas famílias heterossexuais tradicionais da classe média indo às missas celebradas por essa instituição aos domingos; outras famílias vão aos cultos que se originaram de uma bifurcação ideológica com base em discordâncias fundamentais iniciada no século XVI; muitas dessas famílias se consideram o único modelo de célula de organização social possível e se posicionam contra (1) qualquer outra organização celular e (2) qualquer outra organização social que as ejete do conforto ilusório da classe média; outras espécies de perseguição resistem e, no final das contas, as pregações daquele cara que começou tudo há mais de dois mil anos jamais foram observadas e, se tivessem sido, toda essa treta de Inquisição e perseguição nem teria existido in the first place.

E tudo isso tem a ver com os meus adolescentes porque, simplesmente, ver a crua natureza humana de perto é ter que se conformar com toda a história da humanidade como uma sequência de catástrofes inevitáveis: a galera consegue fazer guerras milenares em nome de Jesus (o ícone da paz de acordo com eles mesmos), imagina o que não fazem com todo o resto.

20180227

A América e os americanos e ensaios selecionados



"O jornalismo de Steinbeck é o registro de um homem que queria fazer a coisa certa, que queria ver com clareza e exatidão, sem soberba -- e sem jamais afirmar que sua visão era a definitiva, ou sequer uma visão completamente exata." (Introdução à edição brasileira de A América e os americanos e ensaios selecionados, página 17)

Achei este belo volume na última vez que estive na Livraria da Vila do shopping Galleria (antes de ela fechar para dar lugar a uma Riachuelo, como já devo ter comentado quinhentas vezes por aqui) e comprei porque tinha recém-relido Of mice and men e começado a pensar sobre John Steinbeck de novo. Californiano, icônico, célebre testemunha da Grande Depressão e autor de uma obra expressiva que lhe rendeu um Nobel em 1962, Steinbeck figura entre os grandes nomes da literatura americana por motivos que me ficaram bem claros depois de ler este livro de ensaios.

A primeira dessas razões é, simplesmente, a qualidade do texto. Cristalino e fluido (o que me faz lembrar que Steinbeck dizia que escrever é difícil, que jamais escreveu com facilidade; isso atesta o tanto de trabalho aplicado em cada linha, já que a leitura parece tão fácil), ainda que traduzido para o português, o texto de Steinbeck tem um sabor que só um nobelizado seria capaz de produzir (e não que eu seja paga pau de honrarias mundanas, mas é que pra ganhar um Nobel de literatura o cara tem que provar, repetidas vezes, que domina o seu craft; então, acho inegável que o Nobel seja uma grande recomendação). À qualidade da escrita junta-se a seleção de temas de um homem excepcionalmente sensível e atento às demandas de seu tempo (há, no final de A América e os americanos -- último livro de não-ficção publicado em vida por Steinbeck -- um texto sobre o racismo nos Estados Unidos que poderia perfeitamente ter sido escrito ontem; o livro foi publicado em 1966).

Steinbeck, no curso de sua carreira como jornalista e como colaborador de inúmeros periódicos, escreveu sobre amigos, família, infância, literatura, a guerra, cachorros, política e uma infinidade de outros assuntos. Sempre com originalidade em sua abordagem, sempre rigoroso e avesso às soluções fáceis (e talvez por isso seus textos soem tão atuais em termos de reflexão: vivemos a época das soluções fáceis, a época em que o presidente americano se pronuncia pra dizer que, se professores andassem armados, eles poderiam conter mass shootings), Steinbeck é um cara que precisa ser lido.

20180222

Top 10 facts about her

1. She's my dream come true
2. She's stunning
3. She's incredibly naughty when she's under (or on top of) me
4. Her voice resonates deep in my chest and every syllable is moving
5. Her smile melts my bones, the perfectly placed dimple on her right cheek melts my heart
6. She's a princess and she looks like one and she smells like one
7. When she leaves, I start missing her the moment we kiss goodbye
8. Her boobs are the best (and so's her brain: so tough to choose, cause I find home in her body and also in our imaginary places)
9. She's practically an astrological prescription to my needs:
10. She's air to my fire, where I am earth she's water, we're perfect soil to future

20180215

A literatura como

A literatura como um snack levado na bolsa
Preenchendo minutos de ócio e minutos de fila
Corriqueira como uma terça e, às vezes
Invocando como uma feiticeira habilidosa
Chamando como um coração pulsa
(A literatura como um coração batendo, apenas
No meio de tudo, vermelho e nu)
Como uma parede decorada, forrada de livros jamais lidos
Lombadas de couro e gravadas a ouro
(A literatura como poltronas e luminárias e tapetes
E estantes de madeira maciça e chás e charutos
E também poeira e ratos e traças e manchas de tempo)

A literatura como texturas e pesos e cheiros de papel e tinta
Aquela orelha irritante no exemplar devolvido
A foto da capa, tirada de um filme, na décima edição
Depois que Spielberg fez a adaptação
Best-sellers, expositores nas Lojas Americanas
Com os últimos lançamentos:
A autobiografia da Youtuber de quinze anos
que fala sobre penteados e que tem dez milhões de seguidores
O pequeno volume em cinco capítulos sobre a caridade
do ponto de vista de um padre brasileiro
A coletânea de poemas selecionados por uma atriz
de telenovelas que recentemente se casou em nove cerimônias
(A literatura entre sabão em pó e caixas de bombom
E DVDs de sertanejo e Celine Dion)

A literatura como vocação (Borges, Rimbaud, Plath, Steinbeck)
E como business às vezes insustentável
(A livraria que fecha para dar lugar a uma loja de roupas)
Porém, antes de mais nada: a literatura
Como faces e faces da necessidade humana
De trocar: trocamos fluidos, produtos, ofensas.
Nossa necessidade ancestral de trocar histórias ao redor do fogo
É a mãe da literatura, essa autêntica mágica humana
(Sombras na caverna: trovadores, sagas nórdicas
Cosmogonias e deuses e povos vagando em desertos
Alexandrias e papiros e grandes guerras e Gutenberg
E poetas suicidas e parques temáticos)
Inesgotável, a magia transborda tomando outras formas
(Inclusive eletrônico-futurísticas, inclusive autofágicas)
Porém, de novo, antes de mais nada: a literatura
como ponte entre distâncias, diálogo entre séculos
como todo o incompreendido do espírito humano,
como todo o incompreensível espírito humano.


20180205

Breves comentários sobre aquisições recentes

Esses dias achei o Blu-ray de Labirinto, que foi um dos meus filmes preferidos da infância (inclusive lembro de ter um crush na Jennifer Connelly de 15 anos de idade: eu já era uma criança gay), um box do Tarantino com 4 filmes (Kill Bill vols. 1 e 2, Jackie Brown e Pulp Fiction), que oportunamente comentarei em um post próprio, um box com os três Jurassic Park (que jamais assisti em sequência, mas que imagino serem muito massa com todos aqueles dinossauros massa conjurados a partir dos efeitos especiais dos anos 90), Matrix (que já vi de novo e pirei de novo: como eram puros os anos 90, antes da enxurrada de tecnologia que soterrou as grandes produções depois da virada do século, e da qual Matrix inclusive é um divisor de águas - o que me leva saudosamente de volta a Labirinto e a Jim Henson; vou perder duas linhas pra dizer que adoro efeitos especiais, é claro, mas acho que às vezes são usados indiscriminadamente) e Jumanji (que também foi um dos meus preferidos da infância e que agora tem uma continução com o The Rock nos cinemas, que ainda não vi).

Comprei também A América e os americanos, um livro de crônicas e ensaios do Steinbeck sobre os Estados Unidos (que já comecei a ler e estou adorando), Radical Chic, do Tom Wolfe, um livrinho em inglês aparentemente bem ácido sobre a sofisticação das classes abonadas, e uma tese sobre a abordagem histórica da Argentina na obra do Borges (que, inclusive, foi o último livro que comprei na Livraria da Vila do Galleria). Comprei também uma antologia de poesia da Hilda Hilst, pra começar a preparação para a Flip 2018, uma biografia muito massa do Einstein, que já terminei e adorei, e um livro de contos da maravilhosa Chimamanda Adichie, de quem eu nunca tinha lido nada antes de ler No seu pescoço - incrível.

Na minha fila de leitura também estão alguns livros que peguei na biblioteca da escola (Into the wild, do John KrakauerThe story of English in 100 words, do David CrystalÓrfãos do Eldorado, do Milton HatoumNight, do Elie Wiesel, e The boy in the striped pajamas, do John Boyne) e mais alguns que a Natasha me emprestou (O último voo do flamingo, do Mia CoutoMeio sol amarelo, da ChimamandaUm grão de trigo, do Ngugi Wa Thiongo - observação para a Natasha me iniciando na literatura africana - e O pianista, do Wladislaw Szpillman - o que me faz lembrar que quero achar esse DVD pra comprar).

Obs.: E foi só depois que terminei de escrever este post que me perguntei se talvez alguém aí ainda tenha também essa febre de comprar DVDs e Blu-rays. Estou há alguns meses sem Netflix porque mudei de apartamento e ainda não tive vergonha na cara pra pedir pros caras virem instalar internet (na minha cabeça esse é um processo de alta complexidade), mas comprei uma TV e um Blu-ray e estou me divertindo pacas à moda antiga.

20180202

Duas notas

I.

A história recente do Lula é quase uma tragédia de Shakespeare. O cara está sendo enforcado com a ajuda do mesmo povo que ele ajudou a embranquecer (porque no Brasil ser branco não é apenas uma questão de pele). Não estou dizendo que o Lula não deveria ser preso, antes que me chamem de petralha comunista vagabunda etc. Mas é tão óbvio que estão atrás dele pelas razões erradas que eu fico só pensando: ninguém vai perceber que nunca antes na história deste país um presidente foi preso, até que um nordestino pobre entrou na jogada?


II.

Jair Bolsonaro é a nova pedra que a galera tem usado para atingir a dita esquerda brasileira: as pessoas que ficam metralhando a hashtag bolsonaro2018 por aí mal sabem da própria história, quanto mais de propostas de governo ou do papel do chefe do Executivo no Brasil. Na verdade, não querem saber de política ou processos históricos. Querem se posicionar com o conforto bovino das soluções infantis. Usam a hashtag com tudo o que ela tem de ofensivo, como um ataque àqueles que ousam defender as liberdades individuais e o bom senso como princípio máximo. Usam a hashtag como gorilas arremessando merda na plateia.

20180201

A nota mais triste deste blog

Tínhamos uma Livraria da Vila aqui em Campinas, no shopping Galleria, até ontem. A partir de hoje, o espaço que foi por quase três anos ocupado pelo melhor acervo que esta cidade já viu passará por um processo de transformação e será, em breve, uma esplendorosa Riachuelo (mais uma). Faz sentido que uma metrópole provinciana como Campinas não consiga sustentar a existência de uma livraria de ponta, se a gente analisar o perfil intelectual do campineiro médio (que é basicamente algo como a educação voltada para a firma) mas ainda assim é surpreendente que este bairrão de mais de um milhão de habitantes precise de uma Riachuelo a mais e de uma livraria a menos.

20180131

Melhores de 2017

Livros

1. Poemas (Wyslawa Szymborska)
2. Sapiens (Yuval Noah Harari)
3. Cosmos (Carl Sagan)
4. A book of luminous things (Anthology)
5. Man on the run - Paul McCartney nos anos 1970 (Tom Doyle)

Filmes

1. Hell or high water (David Mackenzie, 2016)
2. Hidden figures (Theodore Melfi, 2017)
3. It (Andy Muschietti, 2017)
4. Lion (Garth Davis, 2017)
5. La La Land (Damien Chazelle, 2017)

20171112

books books books

desconfio que minha constante confusão mental se deva à maneira caótica com que vou comprando livros e os empilhando em todos os cantos da casa sem uma gota de método. tenho pilhas na cozinha de david crystal, fitzgerald, campos de carvalho, diamela eltit e stephen king. outra pilha do lado do sofá que tem mais stephen king, desta vez suas memórias literárias, e também it - a coisa (depois que vi o filme perdi o gás na leitura: o livro tem mais de mil páginas e gostei bastante do filme - tem aquele arzão de anos 80 e até aquele menino de stranger things, que aliás acabei de ver esses dias e também gostei bastante -, o suficiente pra considerar abandonar a leitura - coisa que nunca faço, nem quando sofro através - e esperar a continuação), os detetives selvagens do bolaño, o volume dois da saga biográfica do hypíssimo karl ove knausgard, guerra dos tronos, garcía lorca e elizabeth bishop, dexter do jeff lindsay, um livro sobre a obra do washington olivetto que não me perguntem como foi parar ali, um tal de manifesto contrassexual de um cara chamado paul preciado, que ainda não li mas que foi indicação de um vendedor da livraria da vila, margaret atwood (acabei de ver aquela minissérie da netflix, alias grace, e quase gostei bastante, mas vamos ver o livro), mindhunter (cuja adaptação na netflix também vi e pirei absurdos, melhor série original de todos os tempos, com produção de david fincher - que também dirige quatro episódios), por que o mundo existe, que estou relendo porque é fenomenal, história da riqueza do homem, que também estou relendo porque idem. no quarto tenho outras pilhas que não vou listar porque ninguém merece, mas não preciso nem dizer que a minha leitura é um processo tortuoso sem pé nem cabeça que mais colabora para os meus estados de quase demência do que qualquer outra coisa. vou comprando abrindo cheirando começando livros ao sabor da minha vontade, que francamente é uma fickle bitch, e até que acabo completando as leituras iniciadas - às vezes dois ou três anos depois -, leio em média oitenta livros por ano, mas sinto falta daquela pessoa que começava um catatau do dostoiévski e ia até o fim sem interferências de, por exemplo, foster wallace ou lima barreto. (será que já fui mesmo essa pessoa? será que isso é um saudosismo revisionista daqueles clássicos dos bons-tempos-de-outrora, como convém a quem entrou nos trinta? já nem lembro.) pulo de uma coisa pra outra e me divirto muito com isso, que fique claro. mas as minhas anotações vão se perdendo, meus diários de leitura ficando pelo caminho, começo a esquecer que frase li onde. no final das contas, é como se eu não tivesse lido nada (e, olha: quando eu era adolescente, pensava que a literatura me faria uma pessoa mais inteligente, não uma pessoa mais mentalmente estabanada), mas pelo menos tenho um hobby que é uma verdadeira paixão, e não se pode descartar isso, de qualquer maneira. e, levando em consideração o fato altamente frustrante de que nunca vou dar conta de ler todos os livros que gostaria de ler na minha vida (nem se o yuval harari estiver certo e formos logo nos tornar seres amortais), talvez eu tenha arranjado um daqueles casos enlouquecedores sem solução que vão me manter o cérebro ocupado até o fim dos meus dias, mas com a resignação daqueles que se enfiam nessas enrascadas, talvez talvez talvez eu possa dizer, simplesmente: ok.

20171018

Ghost towns after bombs
Are just a pile of stones
In the eyes of the centuries
Departed sailors become
Memories on the shore
As long as a wife wheeps

(To get older is to experience the aging of the universe
Such a march, witnessing vanishing seconds in a row
And it all goes back to where it came from -
Which is the absolute zero, as the scientists say)

It's gone and it's all right
It would be sad if
There was time for that
It would be tragic if
There was heart for that
It would be nothing if
It became what it just did