20171018

Ghost towns after bombs
Are just a pile of stones
In the eyes of the centuries
Departed sailors become
Memories on the shore
As long as a wife wheeps

(To get older is to experience the aging of the universe
Such a march, witnessing vanishing seconds in a row
And it all goes back to where it came from -
Which is the absolute zero, as the scientists say)

It's gone and it's all right
It would be sad if
There was time for that
It would be tragic if
There was heart for that
It would be nothing if
It became what it just did

20170618

Há, provavelmente,
Pontes de mundo a mundo
Que não vemos.
Estruturas submateriais
Que talvez sintamos
Em sonhos ou baratos.
(Nos mais profundos
Calabouços atômicos,
No íntimo do cosmo,
Aquilo que apenas
Intuímos - helplessly -
Repousa absolutamente.)

20170607

Master of None, Tim Burton e Salazar's Revenge

I.

Esses dias assisti, por indicação da minha querida amiga Lari, uma seriezinha da Netflix chamada Master of None. Não tinha ouvido falar dela, e provavelmente não teria até hoje, se não fosse por aquele comentário da Lari.

Mas acabei maratonando as duas temporadas e gostei bastante. Os primeiros três episódios causam um certo estranhamento, como acontece com séries em geral, já que é o momento de entender o ritmo e os personagens. Depois é fácil perceber referências a Woody Allen de maneira constante (a abertura em letras brancas sobre fundo preto, a escolha das músicas, o tom do humor, o desajuste de Dev, o personagem principal, que é também pequeno e verborrágico e, é claro, vive em Nova York), e tudo começa a fazer sentido dentro da linguagem escolhida.

A segunda temporada é um pouco mais dramática que a primeira, e foi visivelmente mais cara, mas a leveza geral dos episódios se mantém. (Digo leveza, mas o grande charme da série é exatamente a exploração de problemas comuns de pessoas que entraram na terceira década de vida sem ter certeza de nada: me identifiquei.)

E devo confessar que Woody Allen (também como escritor: ele tem livros hilários) é um guilty pleasure (porque tem toda a polêmica em volta da vida pessoal dele e também porque é muito óbvio apontá-lo como um dos preferidos), assim como Tarantino e Tim Burton -- o trio parada dura do cinema cult mainstream. De qualquer maneira, impossível negar a força da assinatura desses caras.


II.

O que me leva a comentar um livro que estou lendo: O estranho mundo de Tim Burton, publicado no Brasil pela Leya. O livro, de Paul A. Wood, é uma coletânea de críticas e artigos publicados à época do lançamento dos filmes de Burton, desde As grandes aventuras de Pee-Wee até Alice no país das maravilhas. Leitura gostosa, que me empurrou para outra maratona, é claro: filmes de Tim Burton.

Comecei por Batman e Batman Returns, que não via há mais de uma década (depois preciso emendar os filmes de Joel Schumacher; e daí quem sabe os de Christopher Nolan, também conhecido como o cara que chegou no Batman definitivo), o mais interessante é notar que esses Batman são classudos, pra começo de conversa. Toda aquela cinematografia handmade, todo aquele arzão de HQ. (E no Returns tem o Pinguim do Danny DeVito, que é incrivelmente superior ao celebrado Joker do Jack Nicholson.)

Filmados em Londres e em Los Angeles (o primeiro em 1989 e o segundo em 1992), eles nos transportam para uma época em que filmes de super-heróis não eram uma exibição alucinante de efeitos especiais e cenas de ação pura. Há cuidado no figurino, nas escolhas de ângulos e tomadas mais estilizadas, no ritmo dosado de quem quer, antes de mais nada, contar uma história. Além disso, nos transportam para uma época em que filmes de super-heróis nem eram algo. A gente pode dizer, com segurança, que Tim Burton mudou para sempre, na virada dos anos 90, os filmes de super-heróis. Hoje, os maiores orçamentos e bilheterias são os dos filmes da Marvel, que inclusive tem seu próprio estúdio (pudera: Batman de Tim Burton movimentou mais de US$1 bilhão em bilheteria e produtos licenciados, fato até então inédito para filmes desse nicho).

Enfim. Quando falamos de Tim Burton, falamos mais de Beetlejuice, Edward Scissorhands, Willy Wonka e Alice do que de Batman. Falamos, inevitavelmente, do estranho, do grotesco. Não podemos esquecer que sua bizarrice é palatável porque ele fez algo dificílimo: trouxe o bizarro para o mainstream. E, também,é claro, lançou Johnny Depp às alturas mais altas do estrelato.


III.

O que me leva a comentar Piratas do Caribe - A vingança de Salazar, que vi em 3D na semana passada. Serei breve: achei o filme bom, mas muito cheio de efeitos especiais (custava deixar a gente ver o Javier Bardem por baixo dos efeitos? Um ator desse calibre desaparecer debaixo de efeitos só pode ser um defeito), piadas sem graça (Johnny Depp pegou todos os trejeitos sutis que fizeram Jack Sparrow o pirata mais ambivalente de todos em A maldição do Pérola Negra e adicionou várias camadas de exagero: Sparrow virou um plano bufão de meia-idade que passa a vida equilibrado entre a sorte e a bebedeira) e cenas de ação com elementos demais (a cena da batalha entre os navios de Jack e Salazar ficou tão escura e bagunçada que comecei a ter saudades reais daquele limpo duelo na oficina de Will Turner em A maldição do Pérola Negra, quando a vida ainda era mais simples). Em compensação, conseguimos saber um pouco mais sobre o passado de Jack Sparrow (que sempre será um personagem fascinante, não importa o quanto o Johnny Depp perca a noção).

20170605

Aquisições sortudas e Mrs. Dalloway

I.

Ontem topei com mais uma feira de livros. É a terceira este ano (a primeira foi algumas semanas atrás, tinha um estande da Leitura no Parque das Bandeiras com centenas de títulos a dez reais. Comprei uma biografia do Saramago -- outra, já tenho uma que ainda não tive tempo de ler -- e Dias exemplares, uma ficção do Michael Cunningham -- aquele autor de As horas; a segunda foi uma passada num saldão da Fnac, que me rendeu o Novelas exemplares do Cervantes -- que livro lindo -- e A confraria, do John Grisham), e achei quatro coisas incríveis: uma coletânea de cartas do Capote, uma biografia do Salinger e outra do Tim Burton e, last but not least, um livrinho mágico que estava escondido debaixo de algumas pilhas, perdido na seção de livros infantis:


II.

Conversando com Mrs. Dalloway, de Celia Blue Johnson. Neste livro, dividido em capítulos curtos e deliciosos, a autora conta a história por trás das histórias, os momentos de inspiração e os processos criativos dos escritores que presentearam a humanidade com grandes obras de ficção. Ela passa por Hemingway e Fitzgerald, García Márquez e Júlio Verne, Dostoiévski e Melville. São cinquenta obras, cinquenta processos. Celia Blue Johnson começou a perseguir este tema quando terminou de ler Mrs. Dalloway "pela terceira ou quarta vez" e decidiu "investigar o que aconteceu antes da criação da primeira página".

O mais interessante é perceber certas recorrências: muitos autores parecem receber seus personagens de maneira quase sobrenatural, vindos de outra dimensão. Como se estivéssemos imersos em um universo de possibilidades e a literatura se apresentasse como um fio de mediunidade, um acesso a esse reservatório de almas e eventos inventados que só podem ser alcançados através de talento e trabalho.

Tolstói recebeu Anna Karenina aos poucos, começando pelo cotovelo, no intervalo amortecido entre a vigília e o sono. Julio Verne pariu Phileas Fogg a partir de um anúncio de jornal que incendiou sua imaginação e Robert Louis Stevenson, após terminar a pintura de uma aquarela, visualizou, na ilha que tinha produzido, uma série de personagens entre as folhagens das árvores. Tolkien era professor em Oxford e, numa tarde tediosa, se pôs a corrigir provas quando uma frase lhe assomou à mente: "Num buraco no chão vivia um hobbit". García Márquez dirigia em direção ao México quando ouviu em sua cabeça a primeira frase de Cem anos de solidão. Deu meia-volta, trancou-se no quarto e durante um ano frenético produziu o maior romance latino-americano de todos os tempos. O livro de Celia Blue Johnson não chega a tratar de J. K. Rowling, mas lembro de ler em algum lugar o relato do momento da criação de Harry Potter, que chegou a ela inteiro, de súbito, no meio de uma viagem de trem.

Joseph Heller, autor de Catch-22, afirmou: "As ideias vêm a mim; eu não as crio por um ato de vontade". William Burroughs menciona um "invasor", um "Espírito Horrendo", com o qual entrou em contato após a morte da esposa (anedótica, inclusive: ao fazerem uma brincadeira em uma festa, ela pôs um copo de uísque na cabeça para que o marido pudesse atirar nele e estilhaçá-lo; ele acabou atingindo a cabeça dela, que morreu antes de chegar ao hospital). Jack London dizia que "não se pode ficar esperando pela inspiração. É necessário sair atrás dela com um porrete", o que pode dar a entender que a inspiração é o desfecho de um processo voluntário. Porém, ainda que o processo seja voluntário, o seu resultado não é obtido inevitavelmente, matematicamente. Até, por isso, o porrete.

Não é à toa que os gregos invocavam as musas para enveredarem pela tradição poética: a própria palavra "inspiração", tão prosaica, remete ao ato de trazer para dentro algo que está fora, um sopro de vida, oxigênio, combustível. Me parece bonita essa ideia, até quando a inspiração vem de pessoas reais: Tom Sawyer é um modelo montado a partir de três meninos que Mark Twain conheceu em sua infância, e a inspiração de Twain é uma espécie de eletricidade que percorre o pequeno Tom e o traz à vida, bem à maneira de um experimento do Dr. Frankenstein.

Fato é que, depois de trazidos à vida, bons personagens ganham o dom da imortalidade. Conan Doyle teve que ressuscitar Sherlock Holmes por conta do clamor público, por exemplo, mas não é disso que falo. Nem falo do belo episódio que García Márquez relatou algumas vezes: quando chegou a hora de o Coronel Aureliano Buendía morrer de velho, García Márquez, que já havia prorrogado demais essa hora, subiu ao quarto em que a esposa dormia e chorou por duas horas.

Falo dessa zona sobrenatural que a inspiração parece alcançar, sendo berçário de figuras que são maiores que a vida: Holmes é maior que Conan Doyle, Quixote é maior que Cervantes, Alice é maior que Carroll. Esses personagens jamais morrerão, continuarão vivos indefinidamente. Até quando as gerações futuras se esquecerem de seus criadores e recontarem essas estórias através de suas novas tecnologias, esses personagens estarão vivos. Tudo graças a esse segundo inesperado de mediunidade, a inspiração.



20170526

Três notas levemente preocupadas

I.

Então, este ano eu tenho que prestar o CPE. Já faz um ano que eu concluí meu curso preparatório da Cultura, mas ainda não tive coragem de sentar pra fazer a prova, porque quem já fez o CPE sabe que o negócio é tenso. O problema é que eu não consigo me concentrar pra estudar. Não consigo, por nada. (Boto um pouco da culpa na minha professora Jeane da terceira série, que me deu um C em matemática, certa vez. Minha mãe me deu bronca, e eu me bloqueei para os estudos desde então.) Tem trinta memes que eu preciso ver antes de estudar, cinquenta vídeos, trezentas fotos. Até postar no blog eu posto antes de estudar. Daí o que eu fiz foi desinstalar meus apps de redes sociais, mas não adiantou muito, porque continuo tendo email e Whatsapp. E Netflix e Kindle.


II.

Falando em Kindle. Mano, eu não sei se foi uma boa ideia isso de descolar um Kindle. Eu nunca tive autocontrole no que diz respeito a comprar e estocar livros, como uma breve visita ao meu apartamento abarrotado de volumes pode atestar. Moro num apê de 60 metros quadrados e tenho mais de 800 livros. Já não cabem em canto nenhum. Achei que, tendo um Kindle, meu problema diminuiria. Acontece que é ainda mais fácil comprar livros no Kindle. Basta um cartão de crédito e um clique. Então agora estou abarrotando meu Kindle de leituras atrasadas (olha hoje, por exemplo: estou relendo o maravilhoso Breve história de quase tudo, do Bill Bryson, como faço todo ano ímpar, então me deu vontade de ler Michio Kaku; baixei um livro, o que me direcionou a promoções de edições brasileiras do Stephen Hawking: comprei mais dois. Comecei a ler todos de uma vez, maravilhada, mas minha pilha segue aumentando -- estou com mais de 30 livros em andamento -- e o CPE não vai esperar eu terminar as pendências, tenho certeza).


III.

Falando em Netflix. Ontem terminei de ver a terceira temporada de Unbreakable Kimmy Schmidt, a série mais engraçada e babaca da história. É tipo entrar na cabeça da Tina Fey em um rolê muito bêbado. Os atores mandam muito bem, a Ellie Kemper é hilária. E nem vou falar do Titus, diva suprema. E tem a Lilian, que eu sempre chamarei na minha cabeça de Mrs Bagoli (por causa de Confessions of a teenage drama queen, com a Lindsay. Aliás, eu tenho uma teoria: todo filme ou série que você assistir tem uma conexão de no máximo 2 graus com a Lindsay: ela já trabalhou com todo mundo. Pode testar. Por exemplo, aleatoriamente: sei lá, O senhor dos anéis: ela fez parzinho romântico com o Elijah Wood em Bobby, filme dirigido por Emílio Estevez, que é filho de Martin Sheen e irmão de Charlie Sheen, que por sua vez já trabalhou ele mesmo num filme com a Lindsay. Julia Roberts: a Lindsay já foi dirigida pelo Garry Marshall, que dirigiu Pretty Woman. Ela já foi filha da Meryl em filme dirigido pelo Robert Altman, do Michael Keaton, da Jamie Lee Curtis, até do Dennis Quaid. Jane Fonda já foi coadjuvante dela, for God's sake. E ela foi uma criança Disney, então até com a Elsa e a Branca de Neve dá pra fazer conexão. Comecei a nota falando de Kimmy Schmidt: Tina Fey, produtora da série, foi coadjuvante da Lindsay no melhor filme da história, Mean girls, claro. I could go on for hours. Acabei de lembrar que eu amo a Lindsay, o que me leva à minha segunda teoria: ela precisa fazer um filme do Woody Allen baseado nela mesma. Precisa ser do Woody Allen e precisa ser sobre a vida dela. Disney, paparazzi, rehab, Oprah etc., tudo surrealizado naquela voz mais típica dele. Esse deveria ser seu grande retorno, e ela então ganharia um Globo de Ouro, algumas premiações de sindicatos e até uma minissérie no Netflix. Um Oscar jamais, porque a Academia torceria o nariz e acabaria escolhendo alguma atriz talvez mais obscura mas muito competente e promissora dirigida por um também competente e promissor diretor, ou talvez simplesmente Natalie Portman ou Cate Blanchett, claro). Enfim, pode reparar: eu não consigo estudar por nada.

20170524

Um comentário sobre Game of Thrones

Gente, retiro tudo o que eu disse sobre não estar adorando Game of Thrones. Terminei de ver a sexta temporada no final de semana e estou pirando porque: 1) quero ver a sétima temporada logo e ainda faltam dois meses; 2) agora que eu decorei o nome de todo mundo e de todos os lugares e casas, o bagulho começou a fazer super sentido nos mínimos detalhes, então eu realmente percebi que Game of Thrones é uma das melhores coisas que eu vi na vida (apesar da estupidez humana que permeia cada episódio etc).

Como eu já devo ter dito algumas vezes por aqui, tem uma coisa em particular que me impressiona quando se trata de ficção: a inserção de elementos que são, ao mesmo tempo, surpreendentes e inevitáveis. Apenas escritores com grande domínio da sua narrativa conseguem fazer isso (num primeiro momento, parece algo simples; quando você para pra pensar em processo criativo, você repara que talvez seja a coisa mais difícil de todas).

Vou mencionar um só exemplo para não dar spoilers demais (mas, de qualquer maneira, darei um SPOILER, atenção): Benjen Stark desaparece na primeira temporada floresta adentro, e não sabemos ao certo o que aconteceu com ele. Sabemos, porém, que em algum momento ele vai dar o ar da graça, já que o George R. R. Martin não ia simplesmente deixá-lo pra lá. Eis que ele ressurge num momento chave, já no final da sexta temporada, e isso faz muito sentido. Além disso, ele nos inteira de um detalhe (que pairou por todas as nossas profundas intuições no decorrer da série, mas que não tínhamos cristalizado num pensamento propriamente dito -- o elemento surpreendente e inevitável): a muralha não é apenas uma grande barreira de gelo. Ela é embebida em magia antiga e poderosa, o que impede os white walkers de transpô-la. Fala sério, isso é muito massa. Porque a magia está presente em todo o coração da série, a grande guerra por vir terá grandes doses de magia, os próprios white walkers são fruto de magia. Como a muralha não teria magia? E é muito apropriado que Benjen Stark, e justamente Benjen Stark, traga esse fato ao nosso conhecimento.

Foi só um exemplo. Poderia dar mais, mas a internet já tem spoilers demais. Queria só corrigir uma opinião que dei aqui esses dias e justificar a correção. Game of Thrones é tenso demais (maior concentração de sangue e peitinhos e bundas por metro quadrado), mas massa demais. Acabo de me juntar ao exército dos loucos de ansiedade pela sétima temporada.

20170508

Três séries

I.


Grace & Frankie é uma das séries mais gostosas que eu já vi na vida. Pra começar, tem as fodásticas Jane Fonda e Lily Tomlin (parêntese relevante: as duas já trabalharam com a Lindsay). Esta nova temporada, além de ser tão engraçada quanto as duas primeiras (eu não esperaria menos de Marta Kauffman, que co-produz a série), é um passo importante na vida de Grace e Frankie: elas finalmente saem do armário e assumem que são melhores amigas. É muito bonitinha essa terceira temporada, tem tudo aquilo que a gente gosta em comédias dramáticas (ou seja, comédia e drama. Zuera. A série é, acima de qualquer coisa, uma boa história sendo contada por bons atores através de bons diálogos: o segredo do sucesso). Recomendo fortemente.


II.

Esses tempos atrás vi a tal da 13 Reasons Why, que foi um furorzinho nas redes sociais, e devo dizer que achei bem da hora. Difícil de assistir, indigesta até o último segundo, mas importante. Talvez o mundo tenha se transformado tão rápido nos últimos vinte anos que a gente nem percebeu como a crueldade adolescente, carinhosamente chamada de bullying, tomou formas mais sofisticadas e perigosas por conta do uso constante das redes sociais (que são hoje coisas totalmente diferentes do que eram quando eu era adolescente), então acompanhar e discutir a triste trajetória de Hannah Baker me parece algo necessário. Chorei litros depois do último episódio e nunca mais verei essa série de novo (claro que verei a segunda temporada, que já foi confirmada pelo Netflix, mas não verei a primeira de novo jamais), principalmente por causa daquela cena (se você viu a série, sabe de qual estou falando), que é linda de tão horrorosa. Mas, se você me perguntar, eu diria que 13 Reasons Why tem, sim, que ser assistida.


III.

Comecei a assistir Game of Thrones semana passada. Estou na terceira temporada e estou gostando. Não estou adorando, porque não sei como adorar uma série em que a personagem principal é a estupidez humana, mas a produção é de fato espetacular. Comecei, ao mesmo tempo, a ler o primeiro livro da série de George R. R. Martin, e também estou gostando. Um prodígio da imaginação, essa história caudalosa de vastos territórios e inúmeros personagens. O livro tem me ajudado a decorar o nome da galera (se bem que meus amigos já disseram que nem vale a pena decorar nomes, porque a galera morre como moscas de banana: já ouviram falar da chocante média de 4,5 mortes por episódio?), mas ainda não consegui entender um fato fundamental: por que cacetes todo mundo nessa série quer tanto ser rei? O pessoal marcha por meses e meses em péssimas condições de higiene e segurança pra tretar com uma outra galera que também está marchando em condições iguais, se não piores, e então todos têm mortes horríveis. Fico desesperada pensando: gente, esse tanto de terra em que vocês estão marchando pra ir tretar, por que vocês não sentam por aí, acendem uma fogueira, tocam umas modas medievais na viola e ficam felizes? Eu sei, eu sei que o ser humano não consegue simplesmente parar de encher o saco. Mas é que em Game of Thrones todo mundo parece ser especialmente talentoso na arte de ser cuzão. Não tá fácil.

20170303

Mais um tijolo

Quando o mundo for governado
Por homens essencialmente maus
Um filhote de guepardo será o último
A experimentar a vertigem de nascer.

Ninguém se dará conta da tragédia,
Já que estarão matematicamente
Somando esta extinção às outras
Que ritmadamente, infalivelmente
Insistirão em acontecer a cada dia útil
(Essas espécies inferiores a nós
São frágeis demais para poder viver.
Não podem participar conosco
Da festa da sobrevivência
Que é também a grande batalha)

Quando o coração do império for governado
Por algum louco cheio de verdades absolutas
A mais natural das verdades absolutas
Será a inferioridade das periferias do império.
O banimento do diferente será tentado,
Incansavelmente, na forma de muros
(Cada tijolo uma pessoa ignorante de seu passado)
E, principalmente, na forma da culpa
De outras línguas, cores, visões e bandeiras
(Bandeiras: esses panos ilustrados de
Significados artificialíssimos
Serão tão mais importantes quanto mais
Louco o imperador)

Viveremos em meio a uma guerra
De profunda desinformação e nenhuma empatia
Tempos de muitos problemas alheios
(Não sou gay, mas sou contra o casamento gay
Não li Dawkins, mas quero sua morte
Não conheço a crença do vizinho, mas é falsa)
E pouca solução de problemas próprios.

Quando o mundo for governado pelo simples desejo
De possuir mais objetos, ou objetos mais novos
(Os antigos reis insanos queriam mais uma légua
De terra. Nós, reis de nossos apartamentos,
Desejamos mais uma polegada de tela?)
A morte de um guepardo será só mais uma linha
(Ou vídeo ou link ou meme ou tweet?)
Soterrada no entulho nosso de cada dia.